expectativa vs realidade- o paradigma das redes sociais

 Em vida holística

Esta já é a terceira semana consecutiva que às quintas-feiras abro o meu coração convosco, e again, este post também não estava planeado, mas talvez por ser final de semana para mim as quintas são dias mais introspectivos.
Vocês não sabem, mas sou muito transparente. Sou muito má a disfarçar as minhas emoções. Emociono-me com muita facilidade. (no outro dia uma mamã que tinha acabado de conhecer, comentou comigo que o leite dela secou e que tinha deixado de amamentar o seu bebé nesse dia, e as lágrimas começaram-me a escorrer pelo rosto). Já tive de controlar muitas vezes a emoção para não chorar quando as pessoas que fazem os meus programas me dizem que perderam peso, porque sei como foi difícil todo o processo para elas.

Sou muito sensível, vivo com o coração na boca, e tenho alguma dificuldade em aceitar coisas que não compreendo. As redes sociais são uma delas, ou melhor, a forma como estamos a evoluir com elas.

Não me interpretem mal, se não fossem o instagram e o facebook eu andava a passar fome há um ano e meio. TODAS as pessoas que fazem ou fizeram o essence chegaram até mim através das redes sociais, e quanto a isso estou super grata. Adoro a forma como estas plataformas nos conectam. Adoro mesmo do fundo do meu coração receber mensagens e emails de pessoas que eu nem fazia ideia que liam o blog a agradecer pelo meu trabalho. Isto é impagável.

De todas as redes adoro o Instagram. Foi o responsável por me apaixonar por fotografia de comida. Consigo passar horas a namorar fotos lindas, e inspirar-me. Escolho cuidadosamente as fotos que publico na conta do officinalis, e tenho mais ou menos sempre uma ideia do que partilhar. Existe claro, aqui alguma curadoria envolvida, faz parte.

Na verdade este post vem, porque esta manhã a minha irmã comentava comigo que todos os dias vê pela sua janela um casal de adolescentes a ir levar o filho à escola. A ela, eles parecem-lhe sempre estar chateados um com o outro e tristes. Hoje ela reparou que a meio do trajecto, ele parou para tirarem uma foto de família. Abraçaram-se, um grande sorriso para a câmara, tiraram a foto, e depois voltaram à cara triste. A minha irmã não queria acreditar, ficou incrédula com aquele momento. Desde então ainda não parei de pensar nisto, e como é que esta felicidade para as redes sociais é uma realidade.

Todos já tivemos momentos assim, felizes só para foto. Todos já jantámos com amigos enquanto os nossos olhos estiveram colados ao ecrã do telemóvel. Todos já desejamos a vida perfeita que aquela pessoa que admiramos pelo instagram parece ter.

Vou ser muito honesta, há dias em que fico triste por não ver os meus números crescer, por não ter milhares de seguidores. Toda a gente tem milhares de seguidores, porque é que eu não tenho? O que é que eu estou a fazer de errado? Há dias em que toda a gente tem fotos e receitas, e corpos, e caras melhores que as minhas. Mas felizmente esses dias são cada vez menos frequentes. Há dias em que não posso dar espaço para que estas inseguranças cresçam. A comunidade do officinalis é bastante pequena, mas eu não me posso queixar. Desde que o lancei que tenho conseguido viver do meu trabalho, e isso é a única coisa que importa.

Vivo numa espécie de conflito interior, ainda a tentar ajustar-me à forma como as redes sociais nos podem engolir, e todas as coisas boas que aconteceram devido a elas. Faz parte do meu trabalho mostrar o meu lado saudável.
Eu não partilhei convosco quando há duas semanas atrás comi pão ao jantar, e na manhã seguinte mal me conseguia mexer. Não partilhei convosco como é difícil aceitar que o glúten não faça parte da minha vida, e como me chateia esta moda do glúten. De repente já ninguém come glúten, e deus dá nozes a quem não tem dentes.

Como vivo tudo com muita intensidade tenho dificuldade em separar as coisas. Não consigo imaginar-me a criar uma personagem para o officinalis, uma toda poderosa, exemplo de perfeição, porque essa pessoa não sou eu. Confesso que já ponderei criar uma personagem. Nunca dei o passo, não se preocupem. :p mas pensem comigo, se de repente eu aparecesse aqui a dizer que o resultado é fácil de alcançar “bebam este elixir de couve e gengibre”, sempre linda com um corpo sarado e penteado perfeito, de certeza que mais pessoas iam chegar até mim, porque as redes sociais vivem das aparências. Vivem das bloggers de viagens que tiram fotos em bikini, nos seus corpos perfeitos em Bali, e que exploram a sua imagem até à exaustão.

Mas a realidade é outra. É uma realidade que nós inventamos. E eu quero dar-vos o exemplo, e partilhar convosco algumas fotos da minha conta pessoal de instagram.
(Como as fotos do offi nunca são publicadas na hora não faz sentido usar este exemplo).

zerowastehome

O que eu escrevi
“Há muito tempo que queria ler este livro. Tentei comprar a versão kindle e por alguma razão que desconheço não estava disponível na loja dos emirados. Acabei por comprar em segunda mão, e custou-me 5 dólares. Vamos lá devorar esta relíquia”.

Realidade
Certo, tudo verdade. Mas no dia anterior a tirar esta foto tinha ido ao dermatologista a uma consulta de rotina. Ela viu um sinal feio que não gostou, e que podia conduzir a cancro. No dia seguinte, (o dia em que tirei a foto), tinha feito uma cirurgia para remover o sinal, e por estar mesmo em cima do externo doía-me horrores, mal me conseguia mexer, e eu passei a semana em pânico com a ideia de poder ter cancro.

fog

O que eu escrevi
“D. Sebastião numa manhã de nevoeiro…Ah, não espera, é só o David quando tivemos de parar o carro porque não conseguíamos ver nada”

Realidade
Minutos antes íamos tendo um acidente de carro por estar mesmo muito nevoeiro. Eu pedi ao David para não continuarmos e pararmos o carro. Ele ficou chateado porque estávamos atrasados para um compromisso. (mas depois compreendeu, não casei com um irresponsável, ok, pessoas?)

cascaisO que eu escrevi
“Saudades disto”

Realidade
O que eu pensei quando o meu amigo me estava a tirar a foto, espero que na foto não se perceba o tamanho do meu rabo.

O que eu escrevi
“Olá annapurna III. A minha varanda preferida de sempre”

Realidade
Parámos neste sitio durante 2 dias para nos aclimatizarmos à altitude na nossa viagem ao Nepal, e eu passei o tempo todo em pânico, com perfeita noção de que o meu corpo não estava a reagir bem. Em nenhum momento da nossa estadia aqui partilhei com o David, porque não queria atrasar o nosso percurso. 2 dias depois, tivemos de voltar a descer, de carro, porque eu já estava quase a cair para o lado. Tivemos de descer de emergência, e quando passámos por esta casa eu desatei a chorar. Amarguras à parte, esta varanda é mesmo a nossa preferida de sempre, e sabemos que iremos lá voltar.

O que eu escrevi
“Bonito na ilha”

Realidade
Imediatamente após publicar esta foto enviei a carta de rescisão à Etihad. Estava cheia de dúvidas, nervosa e muito ansiosa. Afinal eu estava-me a despedir nas Maldivas.

E pronto, um pouco do meu mundo para vos dizer que (e isto é também para mim), que o número de seguidores que temos não é um selo de qualidade do nosso trabalho, não nos define, não nos representa. Serve claro, para divulgarmos o nosso trabalho, chegarmos a mais pessoas, mas é só isso. Que o que partilhamos MUITAS vezes não corresponde ao que estamos a sentir, viver, etc.

As juras de amor que se trocam nas redes sociais não são sinónimo de relações felizes, nem aquele outfit escolhido a dedo #ootd, representativo da personalidade dessa pessoa.

Há uma vida fora das luzes do ecrã para ser vivida. Uma vida muito mais feliz, cheia de emoções e de sentimentos. E isso é o que fica, é o que levamos connosco pela a vida fora. Ninguém se lembra do que andou a ver no facebook durante o último jantar de família, pois não?

 

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Mostrar 16 comentários
  • Vânia
    Responder

    Querida Cláudia,
    Não podia deixar de comentar este post. É a primeira vez que comento, mas não perco uma postagem!
    Queria só dizer que adorei a mensagem e a sinceridade. Revejo-me em muitos muitos pontos!
    A nossa vida não é perfeita e nós seres humanos somos tudo menos perfeitos e as vezes acho que é nessa nossa imperfeição que tentamos passar uma mensagem nem sempre realista.. Não há nada de errado em ter dias maus, desejos, vontades e sentimentos que vão contra aquilo idealizados, mas as vezes também penso.. quem quer ver aqueles espinafres murchos ou a nossa cara de sono ou os cabelos todos deslinhados? hihi
    beijinhos
    V.

    • Cláudia
      Responder

      Vânia, que bom ter-te aqui!
      Sim, compreendo o que dizes. Eu adoro aquelas contas de instagram onde as cores combinam todas, e as fotos foram escolhidas a dedo. Mas é como dizes, temos de manter os pés assentes na terra, e saber que há mesmo dias em que os espinafres estão murchos, e está tudo bem.
      Acho que é um processo interior de crescimento e aceitação muito mais nosso do que com o resto do mundo. Um grande beijinho

  • Sofia Marques
    Responder

    Gosto destes posts <3 Tão reais…

  • Catarina
    Responder

    Olá Claudia!
    Adorei este post e o que ele despertou em mim.
    Obrigado por isso!
    Como é que eu só descobri este blog agora??????????
    Tenho mesmo de agradecer à Ana por o ter partilhado no dela.
    Beijinho enorme

    • Cláudia
      Responder

      Olá Catarina, obrigada!
      Eu tenho sido muito discreta na internet, mas gosto de ter pessoas cada vez mais a mimarem-me por aqui. Obrigada!!

  • Filipa
    Responder

    Gostei imenso deste post. Também penso muitas vezes nesta questão… Sou professora como sabes e muitas vezes também tenho que criar uma personagem, nao acho que seja algo negativo, mas não posso prejudicar os alunos com os meus problemas pessoais, mas é claro que eles se apercebem. Agora que te conheço um pouco acho que realmente esse teu lado humano é que faz com que as pessoas gostem imenso de ti, e partilhem com outras como foi bom conhecer-te. Beijinho

    • Cláudia
      Responder

      Obrigada Filipa. Tenho adorado cada uma das tuas mensagens, e conhecer-te melhor também.

  • Inês
    Responder

    Olá Cláudia
    Gostei muito deste post e apartir de hoje comecei a seguir o blog e o instagram 🙂

    Procuro cada vez mais seguir pessoas comuns, pessoas que têm dias bons e dias maus, pessoas humildes sem filtros, sinceras e parece-me que será isso que irei ver e ler no teu blog.

    Ps: Partilhei o post com algumas amigas 🙂

    • Cláudia
      Responder

      Olá Inês, bem-vinda ao Officinalis! Ahah, sim eu sou mesmo essa pessoa, com pouco filtro. Espero ver-te por aqui então, obrigada!

  • Eva
    Responder

    Adorei ler este post!! Tens um projeto incrível nas tuas mãos e que chega ao coração de quem está do outro lado do mundo. Obrigada!!

    • Cláudia
      Responder

      Obrigada Eva!

      Fico muito feliz que gostes deste cantinho. De que lado do mundo me escreves tu? Um beijinho

  • teresa
    Responder

    Tao real.. adorei ler!

  • Fatima
    Responder

    Finalmente alguém sincero e que mostra a realidade. Parabéns pela tua transparência. Gosto de humanos assim como tu. Gosto do modo que escreves,é uma página que me inspira. Sabes,quando estou em baixo leio os textos e depois fico com outra perspectiva e o astral logo sobe. Continua assim,simples. Grata.

    • Cláudia
      Responder

      Muito muito obrigada Fátima, por todo o carinho, e um grande beijinho

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