Entrevista com Ana Milhazes Martins- Ana, Go Slowly

 Em PT, vida holística

A Ana é um nome incontornável no que diz respeito ao minimalismo, e mais recentemente, o desperdício zero em Portugal. Sigo o “Ana, go slowly” há muito tempo, e tem sido muito interessante acompanhar a evolução dela, tal como uma grande inspiração. (não a estou a engraxar, é mesmo verdade!).

Fiquei muito feliz quando ela aceitou o convite para partilhar um pouco mais sobre a sua história. Adorei descobrir como o Ana, go slowly surgiu, e tenho a certeza que vão gostar também.

Já estás há algum tempo na blogesfera, o que é que te levou a criar um blog?
É verdade, criei o blog no final de 2012, numa altura em que precisava de algo novo na minha vida, um novo desafio…Praticamente desde que descobri o minimalismo no final de 2011 que comecei a escrever sobre o assunto. Estavam a acontecer tantas mudanças positivas na minha vida graças a este estilo de vida que precisava de as registar, para mais tarde recordar. Então voltei a ter um diário, mas desta vez digital. Não queria acumular papel, afinal eu escrevia mesmo muito! Uns meses mais tarde, pensei e se partilhasse isto com alguém? Talvez as outras pessoas conseguissem também descobrir os efeitos positivos do minimalismo! Confesso que andei a pensar no assunto durante o algum tempo até que escrevi um texto em que falei precisamente sobre como o minimalismo mudou a minha para o blog http://busywomanstripycat.blogspot.pt/ numa rubrica sobre os leitores, e a Rita, autora do blog, perguntou se eu tinha algum blog para que pudesse partilhar juntamente com o texto. Pensei: é agora ou nunca! Faz todo o sentido partilhar o meu blog com este texto! E assim nasceu o blog 🙂

Qual é a filosofia por trás do “Ana, go slowly”, e de que forma é que esperas inspirar quem te acompanha?
É essencialmente um blog que retrata o meu estilo de vida e as adaptações que vou fazendo para conseguir, ao mesmo tempo, ter uma vida “normal”, com trabalho/família/stress/preocupações, mas sem me esquecer de que ao mesmo tempo é preciso abrandar, respirar, reflectir na nossa vida para mudar o que não está bem e simplificar aquilo que é demasiado complicado.
Sinto que inspiro os outros porque escrevo e partilho de forma genuína. Sou realmente eu em tudo o que escrevo, vivo realmente assim. Também falho e é uma luta diária para conseguir simplificar e viver de acordo com os meus ideais, mas é nessa luta que cresço e que consigo realmente partilhar algo útil. Ao mesmo tempo inspiro-me a mim mesma, a assumir as minhas falhas e imperfeições e a viver melhor com isso. Portanto, acho que ajudo os leitores e eles ajudam-me a mim, imenso!

Curiosamente temos algumas coisas em comum: o yoga, minimalismo, a alimentação e desperdício zero, encaras isto como algo que faz parte de um mesmo universo, ou achas que tudo isto pode ser visto separadamente, dependendo da óptica de cada um?

Achas que é possível seguir a filosofia do desperdício zero, e não ser minimalista?
Acho que poderá ser vivido separadamente, mas para mim só faz sentido que tudo faça parte de um universo só! No meu caso a alimentação veio primeiro. O minimalismo só chegou uns anos mais tarde, mas quando chegou curiosamente trouxe logo tudo o resto! O minimalismo traduz-se na identificação daquilo que é essencial para nós e que nos permite viver bem e com mais qualidade, é um estilo de vida com mais propósito, baseado no ser em vez de o ter, e esta filosofia só faz sentido se tivermos em conta o impacto da nossa vida na terra e em relação aos outros. De alguma forma estamos todos ligados e não fez sentido vivermos completamente desligados de tudo o resto. O yoga veio precisamente neste sentido… surgiu na minha vida porque o espaço para abrandar e respirar profundamente surgiu… pois até então seria impensável para mim “parar” para praticar yoga! Curiosamente fiquei rendida à primeira aula que tive com a minha primeira professora! Descobri que o yoga, para além de uma prática física, é sobretudo mental e era mesmo disso que eu estava a precisar, de trabalhar não só o corpo mas também a mente. Com o yoga cresceu esta vontade de me conhecer melhor, mas também esta necessidade de estar mais ligada aos outros.
O desperdício zero surgiu apenas no verão passado, mas a sementinha esteve sempre lá, desde miúda que sou muito preocupada com o ambiente e sempre tive muitos cuidados. Aos 7 ou 8 anos já organizava apanhas do lixo com os meus vizinhos no jardim do prédio…
No ano passado consegui ir mais além, neste desafio que é reduzir a nossa pegada ecológica, e também passei a divulgar este estilo de vida.

Acho que é possível seguir a filosofia do desperdício zero e não ser minimalista… aliás vou contar-te um segredo… no início do desperdício zero eu fiquei um pouco assustada! Pois comecei a acumular imensa coisa! Tinha medo de me livrar das coisas sem pensar aprofundadamente sobre o destino que daria a cada uma delas! Sempre me preocupei com esta parte quando destralhava, mas agora estava a seguir um extremo, pois comecei a pensar que tudo me poderia dar jeito mais tarde. Como comecei a fazer alguns produtos de higiene pessoal em casa, algumas embalagens davam-me imenso jeito! Então deixei-me durante alguns meses guardar algumas coisas nuns armários que estão vazios, para depois perceber se realmente me iriam fazer falta. Se depois não usasse então poderia tentar dar a alguém que estivesse também a fazer os seus produtos em casa. Foi curioso, porque por momentos parecia que estava a dar um passo atrás… então respondendo à tua pergunta, é perfeitamente possível e compreendo perfeitamente, pelo menos nesta parte, de aproveitar bem tudo aquilo que já temos, dando um novo uso aos objectos. Relativamente à parte do consumo, acredito que o minimalismo e o desperdício zero caminham de mãos dadas, pois em ambos compras apenas o que realmente necessitas e sempre que adquires um novo objecto, tens em conta o impacto na tua vida, na vida de quem o produziu e na vida do planeta, ou seja, uma compra passa a ser um acto bem pensado, deixando de existir compras por impulso.

Quando é que começaste a pensar no minimalismo de uma forma consciente?
Foi no final de 2011, quando descobri este estilo de vida através da internet e comecei a ler imensos blogs sobre o assunto. Passei dias e dias a ler! Estava fascinada! Tinha descoberto finalmente algo que fazia todo o sentido para mim! A partir daí nunca mais fui a mesma :)Ou seja, vivia o minimalismo no meu dia-a-dia de forma completamente consciente.

E nesse sentido, qual foi o primeiro passo que deste, para simplificar mais a tua vida, ainda te recordas?
Sim, foi fazer uma lista de todas as áreas da minha casa e de todas as áreas que queria destralhar e simplificar. Depois foi um processo, comecei pela casa e cheguei aos compromissos, aos pensamentos, às pessoas. Acabei por simplificar todas as áreas da minha vida.

Um dos motivos pelos quais te convidei, e porque nos meus últimos posts partilhei a minha experiência com o projecto 333, é porque sei que também o fizeste, podes-nos falar sobre a tua experiência?
Resolvi aderir a este projecto, no início de 2013. Tinha mudado de trabalho há pouco tempo e com as mudanças que isso implica (adaptação a uma nova realidade, mudança de rotinas/horários, mais tempo no trânsito) andava a sentir-me muito cansada e uma vez mais resolvi simplificar! Li sobre o projecto e achei super interessante! Pensando bem eu já o fazia, sem saber, pois tendia sempre a escolher as mesmas peças de roupa… Por alguma razão dizem que usamos 20% da nossa roupa durante 80% do nosso tempo e é mesmo verdade!

Então comecei por tirar toda a roupa do armário e escolher as 33 peças que iria usar durante 3 meses. Daqui vem o nome de 333. Normalmente as regras são as seguintes: não devemos contar com a roupa de desporto/de andar em casa/pijamas e acessórios que usamos sempre como a aliança por exemplo. Mas também podemos fazer as nossas próprias regras e foi isso que fiz. Numa primeira fase não incluí écharpes nem bijuteria. Há quem guarde a roupa extra em caixas. Eu resolvi dividir o armário em duas partes (porque é bem grande): uma para as 33 peças e outra para tudo o resto! A diferença foi enorme! O lado do armário com a roupa que não ia usar estava a abarrotar! Mas o objectivo era mesmo esse, para eu perceber que não precisava de tanta roupa.

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Óptima dica: Repararam que a estratégia da Ana, e a forma como ela se organizou para o projecto 333 foi muito diferente da minha? Achei super interessante, ter tudo no mesmo espaço mas separado. Visualmente dá-nos uma ideia muito clara de todo o processo.

Que aspectos positivos encontraste com neste projecto?
Imensos! É muito rápido vestir-me de manhã ou escolher a roupa no dia anterior, por isso, sinto-me logo com mais energia de manhã. Sentia-me muito mais criativa, pois misturava peças que nunca tinha misturado antes, quando ia às compras sabia exactamente aquilo que estava a precisar, passei a conhecer-me melhor e consegui definir melhor o meu estilo, o que me fez sentir muito melhor comigo mesma. Ganhei mais espaço no armário, pois passou a ser muito mais fácil desapegar-me de algumas peças.
Este projecto traz-nos uma mudança completa de perspectiva e permite-nos gastar a nossa energia com decisões que são realmente importantes. A roupa não é definitivamente uma das áreas mais importantes da nossa vida. E não nos podemos esquecer que ainda gastamos tempo a comprar, a lavar, a colocar a secar, a dobrar e a arrumar. Portanto tudo aquilo que eu puder fazer para simplificar esta área é bem-vindo.

E aspectos negativos, sentiste que houve algum?
Para mim não há, mas quem gosta de variar bastante as peças de roupa, poderá sentir alguma monotonia. Neste caso, basta escolher peças bem versáteis e apostar em acessórios diferentes e depois ser super criativo nas combinações.

Nesta momento, sei que estás a construir um armário capsula, como é que te organizas? Copiaste um modelo de alguém ou estás a fazer a construir as tuas próprias regras?
Acabei por construir as minhas próprias regras baseadas em vários blogs que vou acompanhando. Comecei por ter um armário cápsula por estação (é basicamente um projecto 333, só muda o nome!) até chegar a um armário cápsula com cerca de 60 peças para todo o ano. Ainda estou no processo, pois ainda tenho cerca de 30 peças a mais! Não me vou livrar de tudo só para cumprir o objectivo, até porque há peças das quais gosto bastante. Apenas tento perceber quais as peças que vou ou não substituir e quais as regras que devo seguir.

Como criaste o teu método. Podes-nos dar algumas dicas para quem começar um armário capsula?
Pegar num papel e caneta e abrir o armário.

Começar por perceber como é o nosso estilo de vida (se usamos um estilo de roupa durante a semana por exemplo e outro ao fim-de-semana, que actividades temos?), apontar o estilo de roupa que mais gostamos e também as cores preferidas, registar aquelas peças que usamos mais vezes.

Podemos aproveitar para dividir logo as peças, experimentar outfits, perceber o que resulta e depois guardar a roupa de uma forma que seja fácil usar e conjugar. Se for necessário, aproveitamos para nos livrarmos de mais algumas peças. A ideia é ir experimentando, não vamos acertar logo à primeira, se depois precisarmos de acrescentar mais peças ou substituirmos algumas, não há problema nenhum. Vamos brincando e experimentando.

Eu gosto de ter as minhas peças de roupa todas apontadas numa lista e depois vou riscando aquilo que não será necessário substituir, aquilo que não tenho usado nos últimos meses e que por isso vou dar ou vender. É simplesmente uma forma de me organizar melhor.

No teu blog também tens partilhado a tua experiência na produção de menos lixo, e tens sido uma grande inspiração. A meu ver existe ainda um longo caminho a percorrer, no sentido em que para muitas pessoas, este é um assunto que lhes passa completamente ao lado. Como é que achas que está a situação em Portugal, de que forma é que podemos contribuir para a mudança de mentalidades?
Felizmente este assunto tem sido bastante divulgado e fico mesmo feliz quando vejo que imensa gente usa os seus sacos em tecido nas compras, compra produtos a granel e dá sugestões nas lojas. Acho que temos um longo caminho a percorrer, mas já começamos e isso é o mais importante! Fico espantada com a quantidade de gente que já faz parte do grupo Lixo Zero Portugal. Acho que esse interesse quer dizer alguma coisa!

Conta-nos um sonho minimalista que tenhas.
Esta é muito difícil! Acho que é poder ajudar ainda mais pessoas e divulgar ainda mais este estilo de vida! Acho que traz imensos benefícios e gostava realmente de ter mais tempo para me dedicar a este projecto a 100%. Quem sabe um dia?

De onde retiras a tua inspiração para simplificar mais a tua vida, e viver de uma forma mais plena?
De todo o lado, do que leio, das conversas, das actividades diárias, dos podcasts que oiço. A vida rotineira pode ser bem inspiradora, basta estarmos atentos! E eu estou sempre à procura de optimizar algumas áreas e simplificar ainda mais!

Quem quiser saber mais sobre ti, onde é que te pode encontrar?
No meu blog http://anagoslowly.blogspot.pt/
No facebook https://www.facebook.com/anagoslowly/?fref=ts/
No instagram https://www.instagram.com/anagoslowly/
No pinterest https://pt.pinterest.com/anagoslowly/
Na página Lixo Zero Portugal https://www.facebook.com/zerowasteportugal/?fref=ts
E também no grupo Lixo Zero Portugal https://www.facebook.com/groups/LixoZeroPortugal/?fref=ts

Adorei a conversa e tenho a certeza que gostaram também, a Ana deu-nos muitas dicas preciosas. Acompanhem a evolução dela, e façam-nos companhia no grupo Lixo Zero Portugal.

 

 

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Mostrar 4 comentários
  • Catarina
    Responder

    Olá Claudia!
    Antes de mais muitos parabéns pelo espaço que aqui tens. Não conhecia o teu blog e foi graças à Ana que aqui vim parar!
    Parabéns também por esta iniciativa de fazeres a entrevista à Ana e com isto divulgar o percurso dela.
    Já sigo a Ana há alguns anos pelo blog e tem sido incrível ver o percurso que ela tem feito. Gosto imenso e identifico-me bastante nas crenças dela. Confesso que segui-la tem sido muito inspirador para mim. Muitas das alterações que também tenho feito na minha vida devo-as à inspiração e incentivo que ela me transmite. E sou muito grata por isso.
    Beijinho enorme às duas.

    • Cláudia
      Responder

      Olá Catarina, obrigada pela mensagem. Fico feliz por saber o carinho que tens pela Ana, eu também gosto muito de a acompanhar, é bom saber que há cada vez mais pessoas inspiradas em viver uma vida mais simples. Um beijinho

  • Raquel
    Responder

    Olá Claudia,

    Vim parar ao seu blog através do blog da Ana. Por sua vez, descobri o blog da Ana através de buscas sobre minimalismo. Comecei a interessar-me pelo tema há largos anos quando li um livro de uma escritora francesa que se radicou no Japão. De momento não tenho presente nem o nome do livro nem da autora. Na altura era adolescente e, enquanto vivia na casa dos meus pais, conseguia manter o meu espaço reduzido ao essencial. Aliás, recordo-me que mais nova ainda, e no final dos anos lectivos, arquivava o essencial e “destralhava” tudo resto. Hoje em dia, na minha própria casa e com dois filhos pequenos, não consigo manter o foco no essencial e reduzir tudo o que é excesso. Tenho muita vontade de destralhar a minha casa e o quarto dos meus filhos mas vou sempre adiando a tarefa por achar que me vai consumir muito tempo, e esse parece-me sempre pouco para estar com eles. Terei de me organizar melhor para o fazer futuramente.

    Raquel

    • Cláudia
      Responder

      Olá Raquel, bem-vinda ao officinalis.
      Imagino que com filhos pequenos seja bem mais difícil todo este processo de destralhe, é fácil quando são só as nossas coisas. Adorava saber mais sobre o teu processo, quando tiveres coragem de te dedicar a essa (pesada) tarefa. Adorava também saber o nome do tal livro, fiquei super curiosa. Um beijinho

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